OPINIÃO

Mulheradas

05/03/2018

Chegam por todos os lados, aos borbotões, por minuto. Estão expressos em todos os meios de comunicação. Se chegasse um ser de outro planeta, ou se nós mesmas fôssemos levar em conta tudo o quanto nos oferecem esses dias, decretaríamos que a igualdade já chegou, que está tudo bem, ótimo, que as mulheres estão quantitativamente representadas em todas as atividades, que conseguimos tudo o pelo qual tanto lutamos há tantas décadas; séculos, na verdade.

 

Mas a verdade é que por esses dias as tais empoderadas, liberadas, compreendidas, apoiadas, empedernidas, corajosas e bem sucedidas mulheres terão à sua disposição os mais variados tratamentos estéticos com promoções “imperdíveis”; acessórios, roupas e lingeries “para seduzir” – presta atenção! - em liquidação. Até os bancos tiram casquinha. Kits deslumbrantes, e enquanto escrevo, agora mesmo, chegou oferta especial de bolos e geleias. É o marketing, senhoras, senhoritas, meninas, madames, moças, trans recém-chegadas.

 

A realidade, que é bom, está muito longe de alcançar um patamar aceitável. Dirigimos aviões, helicópteros, já fomos para o espaço, mas ganhamos muito menos que os homens, e temos menos chances de alçar voo nas empresas. Assassinatos diários de mulheres por seus companheiros nunca mereceram intervenção mais radical: só leis não cumpridas e a promessa de proteção que nunca chega. Ou chega tarde, para o velório, condolências e explicações mal amanhadas.

 

Veja o governo, ou melhor, os governos, inclusive o daquela que fez tanta questão do “A” em seu aposto. Um cargo aqui, ali, mas neca nas posições-chave. Ela própria só decidia atrelada ao sapo barbudo que por mais que muita gente beije não chegará nunca a príncipe. Esse, o construtor de postes, é outro que parece achar a mulher igual a uma mesa, cadeira, que põe onde quer. Aliás, reparei que agora também pegou o “querida”, “querida isso”, “querida aquilo” quando quer fugir de algum aperto diante de jornalistas mulheres. Deve dizer só para elas, porque não o imagino chamando um repórter de querido. Para ele, deve pegar mal. Cabra arretado, macho.

 

No momento atual, no Executivo, somos esquecidas, e só vemos aquelas cerimônias que muito se assemelham a enterros, aqueles homens sem cor, vestidos iguais em seus ternos escuros e gravatas coloridas, o item que se permitem para diferenciá-los entre si.

 

Já no Judiciário, nossa, tem várias de nós, inclusive na presidência do STF, no comando da Procuradoria também. Várias, eu disse; mas que ainda dá para contar com os dedos da mão. No Legislativo federal, 45 deputadas contra 468 homens. De 81 senadores, 12 mulheres. E tome cota. Cota pra isso, para aquilo. Como são generosos.

 

Falar de mulher não pode ser moda, modinha, coisa de gente politicamente correta. Chegará sim o dia que será real, que será percebido o quanto somos diferentes e como, juntos, todos, homens e mulheres, exatamente com essas nossas diferenças, será mudado o rumo das coisas. Não sei se estarei aqui para ver, como estive quando essa data começou a ser comemorada, exatamente no Dia 8 de março de 1975. 16, quase 17 anos, ali, no MASP, lembro bem. Depois dessa reunião, fotos, vídeos e depoimentos reais emocionantes, minha vida foi desenhada. Luta, independência, consciência, inclusive dos limites a nós, mulheres, impostos.

 

Violência, dupla jornada, racismo, abusos de toda a sorte, assédios, falta de oportunidades, imposição de obrigações, falta de apoio na saúde, como na ainda escamoteada questão da legalização do aborto, passaram a ser temas e interesses do meu dia a dia. O feminismo que, acreditem, não morde, e é o canal de nossa defesa.

 

Isso faz 43 anos. Parece que foi ontem, porque mudou, sim, mas pouca coisa de verdade, estamos no começo das conquistas. Será por isso que acham que queremos esses descontos em lojas nessa data?

 

 

marli@brickmann.com.br

marligo@uol.com.br

Marli Gonçalves
Artigo escrito por Marli Gonçalves

Jornalista, Marli Gonçalves é diretora da Brickmann&Associados Comunicação, B&A. Especialista em gerenciamento de crises. Foi gerente de imprensa da multinacional AAB, Hill and Knowlton do Brasil (Grupo Standart. Ogilvy & Mather). Trabalhou no Jornal da Tarde, na Rádio Eldorado, em Veja SP e outras publicações. Desde 2010 mantém o blog Marli Gonçalves – http://marligo.wordpress.com. Seus artigos também são publicados em www.chumbogordo.com.br No Twitter - @MarliGo No Facebook - http://www.

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