OPINIÃO

Crepúsculo dos Deuses

29/01/2018

A superestrela de outra época foi esquecida, mas se acha ainda a rainha do cinema. Em sua mansão decadente, espera o grande retorno às telas, como se fosse essa a vontade do público. Na sua vida de ilusão, tem o apoio de um ex-amante, talentoso cineasta que trocou o sucesso pelo emprego de mordomo da mulher que adora; ele escreve as cartas com que ela se ilude, pedindo sua volta. O filme é Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950, direção de Billy Wilder). Nele surge um jovem William Holden, o roteirista que narra os fatos reais só depois de morto; Erich von Stroheim, o ex-amante que virou mordomo e ajuda a atriz a se imaginar um ídolo; e a monumental Gloria Swanson, ela própria a grande atriz dos filmes mudos, que não resistiu ao cinema falado. Gloria Swanson é Norma Desmond, a antiga rainha incapaz de perceber que os novos tempos a aposentaram, e o que lhe resta são as imagens do passado.

A vida imita a arte. Um astro de outros tempos, empolgante no regime militar, vitorioso na democracia, tenta se reinventar como desafiante. Só que agora não desafia acusações de subversão: enfrenta denúncias de corrupção, e quem o acusa não são generais ferozes, mas empresários que foram seus amigos, e seus amigos que viraram empresários. Tem, como tinha na ditadura, apoio internacional – mas só Venezuela, Bolívia, por aí.

No filme, Gloria Swanson vai presa. E vai feliz, de novo sob holofotes.

 E agora?

A pressão da Justiça e do Ministério Público sobre Lula é crescente: o Ministério Público Federal pediu que seu passaporte fosse apreendido (e o juiz concordou) e que seus movimentos fossem restritos a São Bernardo do Campo (o que o juiz rejeitou). De qualquer forma, Lula não pode sair legalmente do Brasil. O processo que o condenou a 12 anos de prisão foi o primeiro; há mais quatro na fila. O próximo deve ser julgado no mês que vem pelo juiz Sérgio Moro: o do sítio de Atibaia. Há mais provas no sítio de que o dono é Lula do que havia no apartamento da praia, processo no qual já foi condenado. Vêm depois Petrobras, Odebrecht… é muita coisa. E já há condição legal para que a Justiça decrete, se quiser, a prisão de Lula.

 Chamando pra briga

Lula foi condenado no dia 24. No dia 25, perdeu o passaporte. Mas não perdeu tempo para analisar a situação e decidir o caminho a seguir: praticamente colocou o PT fora da lei (por enquanto, isso não tem grande importância, porque Lula muitas vezes incita o radicalismo e depois diz que não foi bem compreendido). Falando à Executiva Nacional do PT, que aprovou o lançamento de sua candidatura à Presidência da República, disse que não respeitará a decisão da Justiça que o condenou; pediu aos militantes petistas que o defendam e pregou o enfrentamento político, seja lá isso o que for. Mas, pelas palavras e pelo tom, Lula quer beligerância.

 O futuro

Nem todo político é igual, claro; Palocci, importante auxiliar de Lula, resistiu a pouco tempo de prisão e se ofereceu para contar tudo; Dirceu, que foi tão ou mais importante que Palocci, resistiu mais tempo e não contou nada. Mas, no geral, político tende a fugir de partidos que se esvaziam. Normal: num partido que não atraia tantos votos, o número de eleitos será obrigatoriamente menor, e o político luta em primeiro lugar pela própria sobrevivência. O afastamento de políticos dos partidos que diminuem tende a provocar maior emagrecimento partidário.

E o PT está reagindo de modo desconexo às pressões contra Lula. Há parlamentares, como a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, defendendo a ampliação do desafio do partido à Justiça. O deputado Marco Maia propôs, em outras palavras, um levante. Seu texto no twitter: “Lula não deveria entregar seu passaporte. A hora é de rebeldia. Os fascistas estão se excedendo em muito. Ultrapassando todos os limites! Ao mexerem no formigueiro terão de aguentar as formigas!”

 Como?

Mas imaginemos que Lula, com uma ordem, coloque o partido na linha que considerar correta e convença quem pensa em sair do PT a ficar e lutar. Outros problemas prejudicarão o desempenho eleitoral petista. Se Lula não for preso, poderá percorrer o país, mesmo sem ser candidato, para tentar popularizar o nome do poste que indicará para disputar a eleição em seu lugar (hoje, fala-se de Jaques Wagner, governador da Bahia, e em Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, derrotado já no primeiro turno quando tentou a reeleição). Mas, se for preso, quem terá prestígio para falar em seu nome? Pior: quem convencerá os partidos nanicos da esquerda, que sempre foram braços auxiliares do PT, a aceitar papel subalterno mais uma vez?

Confusão geral

A confusão do PT é maior que a dos concorrentes. Mas nenhum partido tem até hoje estratégia definida e estrutura planejada para as eleições.

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Carlos Brickmann
Artigo escrito por Carlos Brickmann

Jornalista, consultor de comunicação. Especialista em gerenciamento de crises. Foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes; repórter especial, editor de Economia e de Internacional da Folha de S.Paulo; secretário de Redação e editor da revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde. Dirige a B&A, Brickmann&Associados Comunicação.

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