OPINIÃO

Tempos e costumes

07/02/2012

 

Dúvida cruel, diante dos últimos (e penúltimos) acontecimentos:

1 - Nunca se roubou tanto no país quanto agora?

2 - Nunca se investigou tanto no país quanto agora e por isso aparecem mais malfeitos?

3 - Perdeu-se de vez a vergonha e tudo se faz às claras?

Resposta correta: as três, mas principalmente as duas últimas. Hoje, as investigações não são feitas apenas pela Polícia, mas também por particulares, munidos de equipamentos de uso geral e baixo custo. E, como se perdeu a vergonha, tudo fica muito exposto. O gatuno expõe seus pedidos como se estivesse fazendo propostas comerciais absolutamente legítimas. E, claro, há o item 1: muita gente, vendo como é fácil botar a mão em dinheiro público, resolveu pegar sua parte.

O mais impressionante, entretanto, é a banalização do absurdo. No momento em que o país precisa economizar, aparecem figurões que já ganham bem e pedem equiparações, aumentos, vantagens. E ainda furam a fila: há gente que espera anos para receber precatórios alimentares que deveriam ser pagos rapidamente, mas para as Excelências o dinheiro aparece na hora - um desembargador, por exemplo, recebeu adiantado porque teve problemas no apartamento.

Ilegal? Não, não é ilegal - mas é frustrante ver que não há dinheiro para reajuste aos aposentados, embora haja para auxílio-moradia a autoridades que vivem na cidade onde trabalham. 

Não é ilegal, mas é injusto. É o decoro zero.

 

A conta da Moeda

De um lado, a incrível história dos casos mal-explicados do diretor da Casa da Moeda, que o levou à demissão; de outro, a incrível história do ministro da Fazenda, que foi alertado para as coisas estranhas que aconteciam na Casa da Moeda e ficou quietinho. E, por trás, o PMDB, que não tem nada com isso mas precisa resolver algumas pendências com a Presidência da República. 

Se quiser salvar o ministro Mantega, cuja cintura ultraflexível é o que ela exige no cargo, a presidente Dilma vai ter de contar com a ajuda do PMDB. Os peemedebistas são bonzinhos e gostam de ajudar os outros, mas gostam de ser ajudados em troca.

 

As pedras no caminho

Aliás, o problema não é só Mantega. O novo ministro das Cidades já está sendo chamado de Mate Leão - cujo antigo slogan era "já vem queimado". O ministro Fernando Pimentel pode ser chamado ao Congresso para explicar suas consultorias. Até o sócio de Pimentel, Otílio Prado, está na lista de convocações. 

E, se forem todos chamados (só o PMDB pode evitá-lo), talvez haja problemas.

 

Onde está Jaques? 

O governador fluminense Sérgio Cabral, PMDB, fez escola: seu colega baiano Jaques Wagner, PT, aprendeu que basta haver algum problema que cai fora do país. A PM em greve, policiais militares bloqueando ruas de Salvador com ônibus (antes, invadiam os veículos e determinavam a saída dos passageiros), e Jaques Wagner estava na Disneylândia da esquerda, babando ovos e chorando lágrimas de esguicho diante de seus heróis juvenis, os irmãos Castro. Voltou na hora para reassumir? Imagine! 

E perderia o jantar com Fidel, no último dia?

 

Questão de prudência

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, não estava na comitiva da presidente Dilma Rousseff que visitou Cuba. Nada a estranhar: o comandante da Marinha também não estaria numa comitiva que visitasse a Suíça.

 

Antecipando-se

Ainda não tiraram petróleo do pré-sal, mas já o deixaram vazar.

 

O petista tucanante

O ainda presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli (fica no cargo até o dia 13), é petista de coração e tucano de linguagem. Segundo ele, não houve vazamento. "Houve uma ruptura da tubulação que liga o poço à superfície, e as causas primárias não foram identificadas, levam algum tempo". Garantiu que os sistemas de prevenção e contenção "funcionaram perfeitamente". 

Pronto: os 26 mil litros de petróleo não vazaram, apenas resolveram cobrir 70 km de área do mar.

 

Hermanos, pero no mucho

O motivo da ruptura do acordo automotivo com o México, pelo qual os carros de ambos os países estão livres do imposto de importação, nada tem a ver com índices de nacionalização da produção. O fato é que o déficit brasileiro nas trocas de carros com o México subiu 160%, para US$ 1,6 bilhão. A indústria automobilística brasileira perdeu competitividade (e este é o problema grave): mesmo com as vantagens tarifárias, as exportações de nossos carros para o México caíram de US$ 600 milhões em 2010 para US$ 400 milhões em 2011.

 

Os nomes do jogo

Ninguém sabe direito como vai evoluir a disputa pela Prefeitura paulistana. Mas uma coisa é certa: se o prefeito Kassab fechar com o petista Haddad, seu candidato a vice não será o secretário da Educação, Alexandre Schneider. Dois nomes da mesma área dispersariam votos. 

Kassab tem dois nomes para a vice: Henrique Meirelles, ex-Banco Central, e a vice-prefeita Alda Marco Antônio.

carlos@brickmann.com.br 

www.brickmann.com.br


 

 

Carlos Brickmann
Artigo escrito por Carlos Brickmann

Jornalista, consultor de comunicação. Especialista em gerenciamento de crises. Foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes; repórter especial, editor de Economia e de Internacional da Folha de S.Paulo; secretário de Redação e editor da revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde. Dirige a B&A, Brickmann&Associados Comunicação.

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