ESPORTES

Vicent Sobrinho: três décadas de corridas e histórias para contar

27/12/2011

 

Poucos profissionais da imprensa brasileira têm uma trajetória tão intimamente ligada com a corrida de rua como o paulistano Vicent Sobrinho, de 46 anos. Participando de corridas há mais de 30 anos, neste período, além de competir, Sobrinho cobriu diversas provas como repórter e fotógrafo de revistas desse segmento esportivo, entrevistou centenas de corredores famosos e anônimos, sempre em busca de histórias ricas e diversificadas sobre a superação desses atletas.

Formado em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero, em 1990, Vicent acompanhou de perto o crescimento desse esporte no país, dividindo sua paixão pela corrida com sua profissão. Como atleta amador, já participou de mais de 600 provas de diversas distâncias, incluindo maratonas e ultramaratonas. "Em 2011, corri 14 provas. Mas, em 1983, cheguei a competir em 53 corridas", conta.

Em sua conquista mais recente, Sobrinho obteve a melhor colocação na categoria Imprensa no Circuito Asics Golden Four 2011, com o tempo de 1h25m16s em uma das meias-maratonas, recebendo como prêmio o direito de participar da Maratona de Nova York. Antes, em Julho de 2010, já havia sido o primeiro corredor da imprensa na Maratona do Rio. Contudo, em 2011, impossibilitado de correr a Maratona do Rio,  venceu os 21kms da Maratona do Rio de Janeiro, e se surpreendeu pois dessa vez a Olimpikus premiou o primeiro profissional da imprensa com um prêmio inusitado: Vicent faturou uma passagem e inscrição para correr uma meia maratona em qualquer lugar do mundo em 2012.

Com tanta história para contar, nós, do CADERNO SP, fizemos uma entrevista cheia de detalhes sobre a trajetória desse paulistano que leva a vida, literalmente, na correria.

CSP: Como e quando você começou a correr?
VS: A primeira vez foi no primário; acho que tinha 12 anos. Largaram uns 30 meninos. O quarteirão tinha aproximadamente 800 metros. Comecei no meio, bem quietinho. Na primeira volta, mais da metade parou no portão da escola e ficou; na segunda, eu já estava em primeiro, e na última volta só restou os dois que terminaram: eu e meu colega Antônio, mais conhecido pelo apelido de Gordão. Até parecia armação, mas não era. Fomos aplaudidos pelos professores e vaiados pelos colegas, que ficaram tirando com a cara do Gordão. Dessa corrida não me esqueço, embora não tivesse medalha. Ganhei uma bola Dente de Leite, que ficou com os bagunceiros de plantão. Nem deu pra levar para casa.

CSP: Quando ganhou a primeira medalha e qual foi a sensação?
VS: Minha primeira corrida oficial foi em 26 de outubro de 1980, onde também ganhei a primeira medalha. Ainda ia fazer 15 anos, estudava a noite na 8ª série, última série do ginásio, e já trabalhava registrado como office-boy. Lembro que na sala do lado, um amigo me surpreendeu quando apareceu com um número de pano. Achei engraçado, pois parecia o número dos irmãos Metralha. No outro dia ele perguntou se eu não queria ir correr no domingo uma prova que iria ter lá na Mooca. Naquela época, 1980, como qualquer corredor novato, não tinha noção do que era correr 1km, e a prova tinha 7,5 km, e era patrocinada por grandes empresas. Logo após a largada,'morri', lá no fim da primeira rua. Só me restou agarrar o primeiro poste e tomar fôlego.

Comecei novamente e fui gostando porque passava gente que não acabava mais. Levei como brincadeira, mesmo assim cheguei bem atrás, mas ainda ganhei uma medalha por ter chegado entre os primeiros 300, e isso mudou toda a minha vida. Me senti como se eu estive acabado de ser reconhecido como um soldado pós-guerra, sei lá...um campeão olímpico. Eu tinha uma medalha, e isso era tudo! Não via a hora de chegar em casa e mostrar para meus pais. Antes disso, mostrei para o cobrador do ônibus, para o motorista, o açougueiro...era uma sensação indescritível! Na outra semana um colega me convidou para correr com o Sr. Orlando, um sapateiro que treinava os filhos e os garotos da rua para competir.

CSP: Qual o primeiro resultado que lhe deu mais incentivo para continuar competindo?
VS: Foi logo na primeira corrida após começar a treinar. O Sr. Orlando, sapateiro do bairro, me contou que preparava seus filhos para ganhar, e nos treinamentos eu não conseguia nunca chegar perto deles. Mas nas corridas os outros garotos não viam nem a cor da minha camiseta. O Orlando chegou a brigar com seus filhos porque perdiam para mim. É importante frisar que Orlando era campeão brasileiro de marcha atlética (ADC Pirelli). Eu tinha prazer de ganhar deles, só isso bastava para continuar correndo e também ganhar de outros.

CSP: E a primeira conquista, quando veio?
VS: Foi numa corrida realizada em 20 de Dezembro de 1980, que teve o total de 3 quilômetros, com uma subida de 1km. Não ganhei a prova, mas fui o primeiro na categoria Juvenil. E assim, ganhei o primeiro troféu, que tenho até hoje.

CSP: Quando participou de sua primeira maratona? Como foi?
VS: No dia 21 de Abril de 1984, na Maratona de São Paulo. Eu tinha 18 anos, foi para provar a mim mesmo que poderia corrê-la. No ano anterior tinha sido atropelado por um ônibus. Sofri três fraturas na perna e fui informado pelos médicos de que não poderia mais correr com perfeição. Não quis saber: fiz uma promessa e recebi as bençãos celestiais. Fui até Aparecida do Norte a pé para pagar a promessa. Após isso, completei a minha 1ª maratona em 3h03m.

CSP: Qual seu melhor tempo numa meia-maratona e numa maratona?
VS: Meia Maratona 1h 09 e maratona 2h 34minutos. Também participei de provas curtas, e cheguei a completar 5k em 15m01s, em 1984.

CSP: Com que frequencia treina?
VS: Atualmente treino dois dias e descanso no terceiro. Mas, dos 19 aos 22 anos, cheguei a treinar 10 vezes por semana, em dois períodos. Ah... e sempre trabalhei e estudei.

CSP: Já contou quantas medalhas possui?
VS: Tenho mais de 400 medalhas e acho que uns 40 troféus, mas dei medalhas e troféus para parentes e algumas ex-namoradas. É importante dizer que, antes, para se ganhar medalhas, era necessário se classificar bem nas corridas. Pois, esse negócio de ganhar medalhas em todas as corridas surgiu a partir de 1985. Eu já corria ha seis anos.

CSP: Quais foram os momentos mais marcantes nessa sua trajetória de corredor?
VS:Foram muitas e muitas superações. Mas o que mais me alegrou foi ter a oportunidade de competir ao lado de meus ídolos Joaquim Cruz e José João da Silva, e poder vencê-los.

CSP: Que lugares que você conheceu através da corrida?
VS: Vários, entre eles Moscou, Nova Iorque, Paris, Buenos Aires e muitas cidades grandes e pequenas do Brasil.

CSP: Nesse período, quais de seus ídolos você entrevistou?
VS: A lista é grande. Porque o que mais gosto é de divulgar as histórias de atletas como Edson Bergara, que acumulou 2000 vitórias em 17 anos de corrida; Elói Schleder, o primeiro maratonista olímpico brasileiro; Maria Auxiliadora, a dama de ferro da COMRADES; João da Matta, o campeão da São Silvestre que parou uma missa quando o padre o reconheceu e pediu um autógrafo; entre outros. São histórias magníficas, porque o corredor é um atleta que provém do povo. Por lutarem pela corrida de rua e sobreviverem a diversas dificuldades, eles são verdadeiros heróis para mim!

CSP: Qual é o momento mais especial em uma corrida?
VS: O momento mais marcante é quando se chega aos últimos 100 metros, avisto o pórtico de chegada, fixo meu olhar no cronômetro, e disparo feito foguete até poder virar para trás e conferir o tempo real.

CSP: O que a corrida representa para você?
VS: Gosto da palavra conquista. Pois é assim que penso quando estou competindo. Se alguém me disser ‘você ganhou’, logo corrijo: “Não, não ganhei nada! Eu conquistei!”. Isso, porque não sei "passear" numa corrida. Eu gosto é de fazer jus ao meu prêmio. Por isso, me dedico a vencer os meus limites; sim, sempre os meus! Superar minhas dores, limites e, por consequência, conquistar algo.

A corrida me dá a sensação de estar 'supervivo'! Não gosto de preguiça. Ou seja, a corrida me faz incansável, vigoroso! Ser corredor me faz assim: jovem. Fico menos resfriado, mais saudável e confortável, enquanto a maioria de meus contemporâneos está vivendo a base de remédios e drogas antidepressivas. Eu sorrio e convido: vem correr comigo?

 

Comentários (5)

Jorge Ultramaratonista -27/12/2011

Conheci o Vicent na Maratona do Rio, o cara é muito parceiro...Caracas 600 provas depois dizem que eu que sou fominha...hehehe...Parabéns Vicent pela brilhante carreira esportista e jornalista... Um abraço, Jorge Cerqueira www.jmaratona.com

Alexandre Abreu -27/12/2011

Fantástica a entrevista o Vicent é uma pessoa fantástica. Aquele tipo de pessoa que cativa a todos os corredores com suas histórias e casos fascinantes.

Kleber Corrêa -28/12/2011

O Vicent é um grande exemplo para todos nós, e exemplo não apenas de profissional, mas de um corredor apaixonado pelas corridas, exemplo de dedicação ao esporte dentro e fora das "pistas"... Parabéns meu amigo. Kleber Corrêa

Yara Achôa -30/12/2011

Li o texto com a voz do Vicent na minha cabeça... O cara é incrível. Orgulho de tê-lo como amigo!!!

Dart Araújo -05/01/2012

Como a própria matéria da ênfase, Vicent é um dos poucos que eu conheci na imprensa com ligação tão forte e antiga com a corrida. Foi um prazer imenso conhecê-lo e sinto-me grata pela sua amizade. Desejo o que há de melhor no esporte e na vida pessoa a este.

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