DIVERSÃO

A longa jornada de Armênio, comunista sim, mas libertário.

13/06/2013

Aos 95 anos cravados no dia 30 de maio, Armênio Guedes, comunista histórico e de sentimentos libertários mesmo nos tempos mais ortodoxos do velho PCB, o "Partidão", tem sua rica trajetória narrada pelo jornalista Sandro Vaia. Em tom de reportagem, o livro "Armênio Guedes, sereno guerreiro da liberdade" (Editora Barcarolla, 254 páginas, R$ 39,00) percorre sua história desde o nascimento em 1918, na pequena Mucugê, na Bahia, até a sua relação com os principais acontecimentos e protagonistas que marcaram a vida política brasileira e mundial no século XX: a revolução de 1930, a chamada intentona comunista em 1935, a ditadura Vargas, a Constituinte de 1946, o golpe militar de 1964, a vida na então União Soviética e depois no Chile de Salvador Allende, o exílio em Paris e sua oposição sistemática à luta armada para combater a  ditadura militar no Brasil.

“O emprego indiscriminado da violência, embora compondo objetivamente o quadro da oposição, não deixa, apesar de seu suposto caráter revolucionário, de desservir à resistência e de dificultar a organização de uma frente única de massas contra a ditadura”, preconizava Armênio Guedes, em resolução política de 1970, conhecida como Documento da Guanabara. 

Embora detalhe a participação ativa e quase sempre arriscada de Armênio na luta contra o autoritarismo, o militante que emerge do livro é um homem elegante, suave, irredutível nos seus valores, mas tolerante, generoso e apaixonado pela vida, pela música e pelo futebol. Mais precisamente pelo Botafogo. 

Filho de uma família intelectualizada e numerosa de 11 irmãos, Armênio Guedes entrou para o Partido Comunista em 1935, na Faculdade de Direito da Bahia, convivendo com figuras como Sinval Palmeira (avô do ator Marcos Palmeira) e Carlos Marighela.  Foram quase 50 anos dedicados ao Partido, até sua saída em 1983, depois de uma conversa com o então secretário-geral do PCB, Giocondo Dias, em que foi confirmado o processo de expulsão de David Capistrano Filho, que viria a ser prefeito de Santos, pelo PT, nos anos 90.

 “Armênio deixou a sala, subiu um andar, pegou seu salário, o último que receberia do partido, e saiu andando até encontrar um cinema. Comprou um bilhete, viu um filme inconfessável e na saída era um comunista livre e sem partido, depois e 48 anos de uma dedicação insubmissa e inquieta militância.”

Funcionário do PCB, foi uma espécie de secretário particular de Luis Carlos Prestes, apesar das posições quase sempre antagônicas de ambos. Conviveu com grandes personagens brasileiros e mundiais como Carlos Drumond de Andrade, Caio Prado Junior, Agildo Barata, Jorge Amado,  Mauricio Grabois,  e conta histórias saborosas como a rivalidade entre o poeta cubano Nicolas Guillen e Pablo Neruda. “Gillen e Neruda se invejavam mutuamente e cada um se considerava mais digno do panteão comunista do que o outro. Guillen era menos hierático e solene do que Neruda. Caribenho de raízes afro-cubanas, visitou o Brasil e se divertiu muito no bairro de Botafogo, onde experimentou a pinga e fez alegres trocadilhos com a palavra, que na gíria cubana é usada nas piadas sobre o órgão sexual masculino.”

Nos anos 1950 seguiu para Moscou para tratamento de saúde, quando testemunhou, ainda internado, os efeitos da morte de Stalin. Armênio não pôde ver os funerais, mas aquele excesso de comoção chegou a incomodá-lo. “Achava meio chato aquela história de pai dos pobres. Tinha certa antipatia por isso”, conta.  Integrou-se, em seguida, a um grupo de brasileiros no curso de formação ideológica da antiga Universidade Lenin. Entre eles João Amazonas, Sergio Olmo, Apolônio Carvalho e o jornalista Osvaldo Peralva, e logo se tornou conhecido pela rebeldia contra o comportamento espartano e subserviente impostos por dirigentes  brasileiros. 

De volta ao Brasil e interditado para qualquer cargo expressivo dentro do Partido, sempre sob a alegação de saúde frágil, Armênio testemunhou os debates motivados pelo relatório do então líder soviético Nikita Krushev narrando os crimes cometidos por Joseph Stálin.  O jornal Estado de S. Paulo conseguiu publicar a íntegra do documento três meses depois, exatamente no dia em que o Comitê Central do PCB se preparava para ouvir o dirigente Diógenes Arruda Câmara sobre o relatório de Kryushev. “Foi uma reunião dramática, onde Carlos Marighella chorou e Arruda passou mal, a ponto de precisar ser atendido por um médico.” 

O partido rachou. Armênio aliou-se aos intelectuais que queriam democratizá-lo, torná-lo independente de Moscou, abri-lo à realidade do País e começar uma discussão ampla sobre o relatório que denunciava os crimes de Stalin . As ideias do Partido Comunista Italiano, mais inspiradas em Gramsci do que em Lenin, começavam a influenciar a formação da corrente chamada “eurocomunista” à qual a ortodoxia do  PCB, Prestes à frente, se opunha vigorosamente.

Na política brasileira, o partido oscilava entre o apoio decidido ao governo JK e as restrições à construção de Brasília. Mesmo não oficialmente legalizado, cresceu no governo João Goulart, chegando a atingir 40 mil filiados, número bastante expressivo para a época. Como outros setores, foi pego de surpresa pelo golpe de 1964 e chegou a apostar na capacidade de reação da sociedade, de confronto com os militares. Sofreu grandes perdas, com muitos militantes presos e desarticulou-se por meses. 

Abordado pela CIA, que pretendia recrutá-lo como informante, Armênio Guedes exilou-se no Chile, onde se engajou, com outros brasileiros, na luta contra o regime militar e passou a receber e alojar companheiros, como o poeta Ferreira Gullar. No início, a situação do País era razoável, mas o clima de radicalização foi se desenhando aos poucos, conforme Armênio conta  em detalhes. 

Armênio estava no Chile quando perdeu seu irmão Célio, assassinado pela ditadura. Vinte dias antes do golpe que derrubou Allende, em 11 de setembro de 1974, partiu para a França para uma reunião do Comitê Mundial da Paz. Exilou-se em Paris e com o cientista brasileiro Luis Hildebrando da Silva, então diretor do Instituto Pasteur, passou a nuclear um grupo de comunistas que se dedicava a colher informações sobre os crimes da ditadura brasileira e divulgá-las na França. Engajaram-se também nas premissas do movimento eurocomunista que defendiam a democracia como valor permanente, e não como uma tática para alcançar a ditadura do proletariado. 

Síntese dos embates que marcaram o PCB e a esquerda no Brasil e no mundo, o livro traz documentos e depoimentos de vários companheiros que conviveram com Armênio, também no exterior. Do ex-governador José Serra ao senador Aloysio Nunes Ferreira e o ex-deputado pelo PT e agora no PSOL, Milton Temer, além de intelectuais como Luis Werrneck Viana, Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho e Marco Aurélio Nogueira. Acompanha a vida do botafoguense, baiano e comunista, e sua volta ao Brasil, em fevereiro de 1980, no auge das divergências entre a visão ortodoxa capitaneada por Luis Carlos Prestes e a visão democrática, Armênio Guedes à frente.

Advogado formado pela Universidade da Bahia, Armênio desistiu da profissão logo no primeiro emprego. Atuou basicamente como jornalista. Primeiro, nas publicações do PCB ou alinhadas às ideias do Partido, depois na Gazeta Mercantil, e na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Com um Ipad em mãos para ler os jornais do dia, continua a ativa com a mesma visão generosa que Milton Temer resume em seu depoimento: o Armênio é uma pessoa inatacável em sua integridade, de uma generosidade acima do comum, das mais agradáveis de conviver e com quem mais aprendi. Ou, como diz Ferreira Gullar em seu prefácio, “um cidadão brasileiro que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna e igualitária”.

SOBRE O AUTOR

Caderno SP publica semanalmente artigos de Sandro Vaia, que é jornalista e escritor. Ele participou da fundação do Jornal da Tarde, onde foi repórter, subeditor e editor de Geral, Esportes, Variedades, Política e Economia. .Em 1984, foi para a revista semanal Afinal, onde foi editor executivo e diretor de Redação. Em 1988 voltou para o Grupo Estado, como diretor de Informação da Agência Estado. Em 2000, passou a dirigir a redação de O Estado de S. Paulo, até 2006, quando se aposentou. Escreveu "A Ilha Roubada"(editora Barcarola) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. 

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