CIDADE

Eleição no Flamengo dá pista sobre o mundo falso da Internet

04/01/2018

As evidências reunidas por uma investigação da BBC Brasil ao longo de três meses sugerem que uma espécie de exército virtual de fakes foi usado por uma empresa com base no Rio de Janeiro para manipular a opinião pública, principalmente no pleito de 2014.

A estratégia de manipulação eleitoral e da opinião pública nas redes sociais seria similar à usada por russos nas eleições americanas, e já existiria no Brasil ao menos desde 2012. A reportagem identificou também um caso recente, ativo até novembro de 2017, de suposto uso da estratégia para beneficiar uma deputada federal do Rio.

Veja aqui a reportagem da BBC Brasil: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42172146

 

Um dos casos citados na reportagem do site noticioso foi revelado quando torcedores do Flamengo perceberam algo errado em um dos perfis envolvidos nas discussões sobre a eleição para a presidência do time carioca de futebol, ocorrida em 2015. O erro do responsável pelo perfil falso do Twitter, que assinava seus posts como John Azevedo, foi repetir muitas vezes que estava cansado, mais de 20 vezes em dois meses.

Seu rosto, nome e publicações incomuns chamaram a atenção de torcedores do time de futebol, que formam uma grande comunidade na rede social, com perfis que têm até 50 mil seguidores. Foi assim que, em 2015, sem se dar conta, eles descobriram mais uma peça no quebra-cabeça de um suposto mercado de fakes no Brasil.

Uma investigação exclusiva da BBC Brasil, parte da série Democracia Ciborgue, apontou que pelo menos uma empresa, a Facemedia, teria incluído a atuação de uma espécie de exército de mercenários fakes como parte de serviços em redes sociais oferecidos a clientes, entre eles políticos.

O objetivo de usar ciborgues, uma mistura de humanos com computador, é humanizar os perfis falsos, de forma que pareçam mais reais. A quebra dos padrões da automatização também dificultam a detecção por computador.

No entanto, embora as contas fossem controladas por pessoas, a pouca sofisticação das frases tuitadas acabaram fazendo com que os humanos ironicamente se assemelhassem mais a robôs, que funcionam reproduzindo mensagens automatizadas, do que a pessoas comuns.

A pobreza vocabular acabou contribuindo para sua identificação como falsos. Na época, identificar a quantidade de repetições de frases e palavras foi a segunda estratégia usada pelos torcedores do Flamengo para identificá-los como fakes.

Um dos entrevistados da BBC Brasil explica que às vezes “faltava criatividade” para criar mensagens distintas controlando tantos perfis falsos ao mesmo tempo – cada funcionário controlava entre 20 a 50 perfis com histórias de vida particulares.

Por meio de uma plataforma externa ao Twitter, programavam mensagens para entrar em diferentes horas do dia. Muitos acabavam escolhendo comentar situações mais genéricas, como a hora do almoço ou a hora de ir dormir.

Hoje, não existe apenas o fake “Jonh Azevedo” no Twitter, como também um “fake do fake”, “Jonh Azevedoo”, criado por torcedores do Flamengo – gozação com a fracassada tentativa do “fake original”.

“Cansado de tanto descansar. Vou descansar. Boa noite”, tuitou o usuário, brincando com a quantidade de “descanso” do fake original. “Assunto de política no Flamengo é muito cansativo, vou descansar um pouco.”

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