16/08/2011Marcelo Rondino

Batendo e aprendendo

 

Não sei dizer quantos acidentes de trânsito acontecem por dia em São Paulo. Imagino que sejam centenas, desde aquelas batidinhas leves até aqueles mais graves que causam mortes ou feridos. Quem guia um veículo nessa cidade está sujeito a isso diariamente.

 

Ontem foi a minha vez de ser premiado. Trafegava pela Av. Prof Ascendino Reis, em sentido aeroporto, quando uma moça que vinha pela Borges Lagoa não viu o sinal vermelho, cruzou e foi atingida por meu carro. Demorei uns segundos pra entender o que tinha acontecido e quando olhei para o outro carro vi que havia uma criança no banco de trás. Gelei... Fui até a moça e perguntei se estavam todos bem. Ela chorava, pedia desculpas e estava muito nervosa, mas felizmente nenhuma das duas apresentava ferimentos aparentes.

 

Marcelo Rondino

Por coincidência um caminhão dos bombeiros passava pelo local e parou para prestar atendimento. Como a criança havia batido a cabeça e a mãe estava com dores pelo corpo, eles solicitaram o resgate para que elas fossem encaminhadas a um hospital para exames. Nisso chegaram também dois agentes de sinalização, dois agentes do CET e uma viatura com dois policiais. O trânsito foi se intensificando. Depois de uma meia hora chegou o carro do resgate com dois paramédicos, e também uma viatura da polícia científica com dois peritos. Quando me dei conta, havia uma imensa quantidade de agentes e veículos oficiais atendendo a ocorrência, coisa que eu nem imaginava que seria necessário na hora do acidente. Após tudo finalizado, fiquei com alguns pensamentos na cabeça:

 

 - o grande esforço que as autoridades paulistanas tem que fazer para atender o trânsito. Um acidente estava mobilizando inúmeros agentes por um longo período, sendo que esse pessoal poderia estar focado em coisas mais importantes para o bem coletivo. Não que eles não deveriam atender esse tipo de chamado, mas o transito aqui é tão intenso que acaba tomando tempo demais deles. Um dos policiais ontem estava me contando que ontem ele tinha passado o dia inteiro atendendo acidentes de trânsito que os agentes específicos não conseguiam dar conta.

 

 - o atendimento prestado por policiais, bombeiros, resgate e CET foi simplesmente fantástico. Todos foram extremamente atenciosos e educados, mostrando que é possível exercer bem sua função como funcionários públicos.

 

 - a moça que guiava o outro carro não tem seguro. Seguro veicular deveria ser obrigatório, assim como a inspeção veicular. Só poderia licenciar o carro se apresentasse a apólice de seguro. Se não tem dinheiro para ter ter seguro, não ande de carro.

 

 - o trânsito em São Paulo e em outras grandes cidades é tão intenso que nos leva a cometer erros mesmo. São muitas coisas a que precisamos prestar atenção, um bombardeio de desafios e estímulos diferentes: outros motoristas, motoboys, ônibus, sinalização, pedestres, ambulantes e muitos outros. Não é fácil mesmo ser um bom motorista.

 

Apesar do prejuízo material, fico feliz de saber que ninguém se machucou. Nessas horas não tem muito o que fazer além de subir de novo no "cavalo" e torcer para demorar para ser premiado novamente.

03/08/2011Marcelo Rondino

Telhado de vidro

O paulistano tem a mania de culpar a prefeitura por tudo de errado que acontece na cidade. Ele cobra pouco mas reclama muito.

 

Em muitos casos ele tem razão. A prefeitura muitas vezes deixa a desejar quando o assunto é zeladoria da cidade. Entendo que realmente falte estrutura pra fazer tudo, afinal São Paulo é uma cidade de proporções monstruosas e nem sempre dá pra fazer tudo. Porém algumas vezes falta planejamento e agilidade mesmo, como no caso em que vou citar abaixo.

Todo dia venho para o trabalho pela Al. dos Nhambiquaras, em Moema. Recentemente a prefeitura fez um bom trabalho e recapeou não só a alameda citada como também a Al. dos Maracatins, duas das principais vias do bairro. Até aí tudo ótimo! Só que o recapeamento já terminou há semanas e até agora as faixas não foram pintadas de volta, o que gera uma bagunça no trânsito. O vídeo abaixo mostra isso:

 

 

Quando se planeja o recapeamento da via, já deveria estar prevista a pintura das novas faixas, não é? Erro besta que atrapalha muito o dia-a-dia de quem passa ali.

 

Nesse caso a prefeitura pode e deve ser cobrada, afinal a manutenção da via é uma de suas obrigações. Só que as pessoas também se esquecem de suas obrigações como cidadãos e não obedecem às leis. Na mesma via foi proibido o estacionamento de carros para que o trânsito flua melhor, mas todos os dias é possível encontrar vários carros estacionados em trechos diferentes. Isso prejudica o projeto de melhorar o trânsito nessa região, atrapalhando os motoristas, gerando buzinadas e reclamações, etc.

Marcelo Rondino

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Rondino

 

Marcelo Rondino

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A prefeitura deve ser cobrada e acionada sempre que ela pisar na bola e não cumprir com suas obrigações, mas os paulistanos precisam aprender que também têm sua cota de responsabilidade nas coisas erradas da cidade e deveriam zelar mais por ela, e não só reclamar.

29/07/2011Marcelo Rondino

Lei Seca, Lei Ineficaz

Um dos assuntos que voltaram a ser destaque na mídia recentemente foi a Lei Seca. Começou há uns meses atrás com o senador Aécio Neves sendo parado em uma blitz no Rio de Janeiro e se recusando a fazer o teste do bafômetro, cena que se repetiria com o deputado federal Romário algumas semanas depois. Aqui em São Paulo a coisa começou com a morte da engenheira cujo carro se chocou contra um Porsche que dirigia a 150 km/h e voltou aos noticiários essa semana com a morte do jovem administrador que foi atropelado na Vila Madalena por um Land Rover conduzido por uma moça que havia ingerido bebida alcoólica.

 

Acho a Lei Seca atual ineficiente e ineficaz. Desde sua concepção até sua fiscalização ela não funciona na prática e não exerce sua função, que é impedir que as pessoas dirijam embriagadas e causem acidentes e mortes.

 

A começar pelo seu rigor, que faz com que o limite de álcool permitido seja praticamente zero, muito menor do que é permitido em outros países como Canadá e Estados Unidos. Acho que geralmente a gente não deve buscar soluções que sejam “oito ou oitenta”, e sim tentar chegar a uma solução que seja razoável para todos. O limite de álcool permitido a quem dirige poderia ser um pouco maior, de forma que aquelas pessoas que queiram tomar uma cerveja ou vinho no jantar sem abusos possam guiar.

 

Meu segundo ponto, e o mais importante de todos, é a oferta de opções para quem quer beber e não quer dirigir. Numa cidade como São Paulo essas opções são limitadíssimas e estimulam as pessoas a pegarem o volante mesmo embriagadas. A nossa tarifa de taxi é a mais cara do país e uma corrida à noite em bandeira dois pode facilmente passar de cinqüenta reais. Convenhamos, não dá pra gastar cem reais (ida e volta) de taxi cada vez que queremos tomar um chopp com os amigos. O metrô fecha às 0h e os ônibus à noite são escassos. A prefeitura teve boas intenções quando fez um programa de taxi mais barato aos finais de semana (“Taxi Amigão”), porém os taxistas simplesmente boicotaram. Assim fica difícil, não é? O poder público deveria pensar em alguma maneira de facilitar e baratear o acesso das pessoas ao transporte público, como algumas festas fazem ao dar bilhetes de metrô junto com os convites. Por que não colocar o metrô funcionando até mais tarde nas madrugadas de sexta e sábado? Por que não algum mecanismo que na prática barateie os deslocamentos de taxi nessas ocasiões? Uma linha especial de ônibus? Apenas idéias, talvez haja mais, seria preciso pensar nisso a sério. Mas seriedade é um bem escasso em nosso país e é mais fácil proibir e multar do que resolver o problema.

 

Por fim temos a questão da fiscalização e punição. Não adianta fazer uma lei como a que temos e o teste do bafômetro ser opcional. Eu sei que juridicamente tem aquele papo de que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo, mas pra mim isso é baboseira. Quando viajamos de avião todos somos obrigados a passar pelo detector de metais e passar as malas por máquinas de raios-X, não? Isso não é produzir provas contra si mesmo? Claro que é, mas isso é permitido e aceito por todos, sem questionamentos. Quando estamos falando de segurança pública a fiscalização não deveria ser opcional, deveria ser obrigado a fazer o bafômetro e pronto. Em casos de acidente de trânsito então deveria ser mais do que obrigatório fazer o teste no local do acidente. Só que na prática não é assim que funciona, as pessoas optam por não fazer o teste, pagam a multa de R$ 957,00, tem a habilitação apreendida, entram com recurso e em poucos dias já estão guiando seus carros normalmente, como aconteceu com Aécio e Romário.

 

No fundo o brasileiro em geral é hipócrita. Fica chocado e revoltado quando vê um acidente em que alguém alcoolizado atropela ou bate em alguém, causando ferimentos ou mortes, mas não quer abrir mão de ele mesmo guiar depois de tomar umas e outras. E nossos políticos continuam achando que as leis proibitivas ainda são o único caminho de resolver os problemas, sem pensar nas aplicações práticas ou em soluções criativas. Enquanto isso a gente vai jogando a regra do jogo, dirigindo depois de beber, baixando em nossos celulares aplicativos pra evitar blitz e não cobrando nossos governantes por um jogo melhor.

 

SOBRE O AUTOR

Marcelo Rondino tem 33 anos, é administrador de empresas formado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e faz parte da equipe do Caderno SP.

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