10/08/2015Marcelo Rondino

Já vai tarde, taxi!

Hoje eu precisava ir do metrô para casa e, ao invés de pedir para minha esposa me buscar, resolvi ir de Uber. Por que não taxi? Primeiro porque queria testar o serviço. Segundo porque eu me recuso a pisar em um taxi novamente desde que muitos taxistas resolveram perseguir e atacar motoristas do Uber, ameaçando, aterrorizando e sequestrando passageiros. Peguei ódio, sabe?

Usar o aplicativo e pedir um carro foi muito fácil. Pedi o Uber X, serviço mais simples e mais barato. O carro, um Cobalt preto novo, demorou 8 minutos para chegar no horário de pico, não é muito. Ao entrar, o carro tinha um cheiro estranho, tipo aqueles aromatizadores baratos, mas nada que incomodasse muito, já peguei muito taxi com cheiro se suvaqueira muito pior. O motorista era muito educado, me perguntou o destino, colocou no GPS e partiu. Me perguntou se a a temperatura do ar condicionado estava boa e se eu queria aumentar ou diminuir. Depois disse ele permaneceu calado, já que eu não puxei assunto pois gosto de ficar quieto na minha. Ponto muito positivo. Ele dirigiu bem, sem ir rápido, costurando ou parecendo um personagem do Mad Max, viagem tranquila e sossegada. Ele não me perguntou sobre música mas o rádio estava na Alpha FM e num volume baixo, não ganhou mas não perdeu pontos. Havia balas e água no carro mas ele não me ofereceu, então não sei dizer se estavam à minha disposição ou não. Ao chegar no destino, nada de perder tempo pagando, ele me agradeceu e desejou boa noite e eu desci. Em alguns segundos recebi um e-mail com meu recibo.

No geral, o serviço foi positivo. Algumas comodidades como chamar pelo aplicativo e não precisar pagar no final já são oferecidos por outros serviços de taxi. Porém o tratamento, o carro e a experiência são nitidamente superiores. Carro novo e confortável, motorista gentil, ar condicionado ao meu gosto, sem Nativa FM alta, nada de ter que conversar, condução tranquila… as chances de ter uma experiência assim em um taxi comum são praticamente nulas.

Tudo isso reforça minha convicção de não usar mais taxi enquanto o Uber não for proibido e também me faz questionar ainda mais a incompetência e atraso do nosso governo.

Nunca entendi porque a quantidade de taxis tem que ser controlada pelo governo. Não estamos falando de um transporte público mas sim de um serviço de transporte particular. Bastaria uma empresa cumprir alguns requisitos básicos obrigatórios (autorização, motoristas com CNH e treinamento, verificação de segurança, impostos, etc) e pronto. O mercado por si só controla o número de participantes, atingindo um número de equilíbrio entre oferta e demanda. O papel do governo deveria ser o de regulamentar, definindo regras e condições para que todos possam competir de maneira clara e justa. O prefeito de São Paulo disse que o Uber não tem nem alvará de funcionamento e não recolhe impostos, então que tal criar condições para que eles sejam legalizados e paguem impostos, competindo com os taxistas?

E é isso que os taxistas e aquela máfia disfarçada de sindicato deveriam estar exigindo. Ao invés de atacar o Uber e seus motoristas, agindo como bandidos, deveriam cobrar do poder público uma nova regulamentação que torne justa a competição, que traga modernidade ao setor e inovação ao consumidor ao invés de incentivar cartel e reserva de mercado. De nada adianta nos forçar a pegar carros velhos, motoristas que não ligam o ar e acham ruim se você pede pra ligar, que fazem cara feia se a corrida é curta, que te enganam no trajeto, que fedem, que dirigem mal e te deixam com medo (já mandei motorista parar e desci porque o cara bateu recorde de contravenções por quilômetro rodado).

Os consumidores querem e tem direito a um serviço de qualidade, que já está disponível. Não tem volta, ir contra isso é dar murro em ponta de faca. Ou o governo regulamenta ou vai ficar pra trás e assistindo o pau comer solto. Enquanto não tomam uma atitude, eu e boa parte dos consumidores continuaremos preferindo um bom serviço do Uber, esperando o atual modelo de taxi morrer. Não sentirei nenhuma saudade.

SOBRE O AUTOR

Marcelo Rondino tem 33 anos, é administrador de empresas formado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e faz parte da equipe do Caderno SP.

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