Thaís Freire

15/09/2011Thaís Freire

Valentões armados

A palavra milícia, que designa um exército popular nascido para proteger a população de uma área, está sendo utilizada de uma forma muito diferente nas regiões mais pobres do Brasil. Diferentemente do ideal de milícia das Farc, na Colômbia – que deu início às lutas armadas em nome do povo, mas que também logo se perdeu em meio aos negócios de seqüestros lucrativos –, por aqui as milícias já nascem de forma totalmente avessa às leis: são ex-policiais e soldados que iniciam “grupos de extermínio” de bandidos para “proteger os civis”.
 

A atitude, que pode ser considerada até mesmo nobre ou louvável entre algumas rodas da sociedade que acreditam que “bandido bom é bandido morto”, está longe de ser algo além de assassinato puro e simples. De acordo com as leis brasileiras, todos têm direito a julgamento e condenação num tribunal justo, e as milícias já ceifam esse direito desde o início. Não fosse o bastante, esses grupos organizados, de homens bem armados e treinados pelo próprio país, acabam por vender suas habilidades de acordo com o maior valor ou principal interesse de algum traficante da região ou bandido que comanda a local. 
 

A partir daí, a subida do poder e o declínio social são certos: os grupos se tornam organizações criminais que lucram com ‘pedágios’ de serviços realizados nas comunidades mais pobres, com poder necessário para impor uma lei que só existe dentro das favelas e morros. Quem for contra esses grupos, que chegam a promover candidatos políticos – exemplo que aparece no filme Tropa de Elite 2, com o policial corrupto que quer ser vereador pelo Rio de Janeiro -, acaba morto em uma emboscada. Esse foi o fim da juíza Patrício Accioli, que levou 25 tiros de pistolas compradas para a mesma polícia que deveria protegê-la de ações como a que a matou. Em São Paulo, grupos de extermínio formados por policiais de pelo menos quatro batalhões da Polícia Militar da capital planejavam, no ano passado, unir forças para formar uma milícia capaz de controlar o tráfico de drogas nas zonas norte e leste, intimidando policiais civis para evitar prisões. Durante a investigação do caso, delegados e investigadores envolvidos foram ameaçados por esses grupos.
 

A solução do problema, que está longe de ser fácil, fica ainda mais complicada com a falta de energia e participação dos governantes do país. Aqueles dispostos a lutar contra essa realidade esbarram na resistência de governadores que se recusam a divulgar dados sobre as possíveis milícias instaladas em seus Estados. Além da luta no escuro, a realidade ainda transparece a verdadeira causa dos problemas: a falta de investimento público na educação. Não fosse a pobreza extrema, a falta de educação, saúde, segurança e recursos, as regiões comandadas pelas milícias não teriam motivo para se curvar aos valentões armados. Mais ainda: não haveria (tantos) policiais dispostos a largar a farda e/ou utilizá-la para fins contrários aos seus juramentos de proteger a sociedade e a justiça. 

SOBRE O AUTOR

Thaís Freire tem 21 anos, está terminando o curso de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e faz parte da equipe do Caderno SP.

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